Como organizar a rotina familiar com crianças pequenas durante o período remoto

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 A noite do dia 16 de junho oportunizou um momento ímpar aos pais de alunos da Educação Infantil, que tiveram a oportunidade de participar de um bate-papo com Mirelle França Michalick Triginelli, Doutora em Psicologia do Desenvolvimento, Professora da PUC/MG e Mãe, um detalhe que vale ser mencionado, uma vez que por si, já cria um vínculo afetivo e transforma o encontro em um momento carregado de embasamento científico, mas também de muita troca de experiência. E foi o que os “presentes” puderam perceber, pois durante toda e a cada fala, foi possível perceber a propriedade com que Mirelle compartilhava suas ideias, opiniões e experiências, o que acabou oportunizando a todos importantes reflexões e também caminhos para ajudá-los a organizar a rotina familiar com crianças pequenas durante o período de ensino remoto, conciliando quatro vertentes: atividades domésticas, atividades de trabalhos dos pais (home office); atividades das crianças (home schooling) e o cuidado com os filhos (lazer).

Mirelle começou falando sobre o momento de grande imprevisibildade que estamos vivenciando, em que, de repente todos perderam suas redes de apoio e se  viram em casa, tendo que conciliar diferentes atribuições e que, mais do que nunca, exigem uma organização e porque não dizer, uma (re)organização da rotina familiar.

Destacou a importância das famílias serem responsivas, ou seja, ainda que tudo esteja atrelado, enquanto adultos, é preciso dar respostas às crianças que de uma hora para outra perderam suas marcações e leituras de tempo.

Convidando os pais a pensar e ver pelo “olhar das crianças”, é possível perceber o quanto elas perderam certas referências e marcas. Sim, porque se os dias da semana para as crianças eram os dias em que elas iam para as escolas e os pais saíam para trabalhar e os finais de semana eram os dias em que todos estavam em casa, que podiam assistir televisão até um pouquinho mais tarde e que também os pais acordavam mais tarde pois não tinham o compromisso de escola e de trabalho; como está as cabecinhas destas crianças? Uma sensibilidade que, enquanto adultos, Mirelle levou os pais a refletir.

Envoltos no turbilhão de sensações, tentando conciliar as diferentes situações dentro do mesmo espaço-casa, os adultos muitas vezes não se dão conta de que, para as crianças este momento também é muito difícil e ela precisa de respostas e de atenção, bem como de limites, do estabelecimento de uma rotina diária que contemple a conciliação das quatro e distintas realidades. E aí Mirelle focou acerca da importância dos combinados, dos limites, dos códigos que precisam ser estabelecidos dentro deste dado espaço, para que a qualidade das relações não se perca. Neste ponto, chamou a atenção dos pais para o fato de que, enquanto adultos, é necessário que analisem algumas situações com a lente, com o olhar da criança.

Para tanto, é necessário estruturar uma rotina, uma “previsibilidade” com a criança e não para a criança. Isto oportunizará uma maior possibilidade da criança entender o processo e também a dimensão da vivência coletiva, compartilha Mirelle, uma vez que a criança precisa entender que ainda que todos estejam em casa, não é o período de férias. Estão todos em casa, mas os compromissos dos pais e os delas continuam e que é preciso estabelecer combinados que precisam ser respeitados e praticados. Assim sendo, em alguns momentos ela terá uma maior atenção do pai, quando a mãe estiver comprometida com uma tarefa do trabalho e vice-versa, o papai também terá momentos em que não poderá desprender toda a sua atenção para ela.

Outro ponto importante é que a criança também pode e deve colaborar para a organização do espaço, o que poderá ser ainda bem didático para ela, como a separação das roupas que estão na lavanderia por cores. ajudar a montar a mesa para as refeições, bem como separar e guardar os talheres, uma infinidade de atividades que ajudarão as crianças a saírem um pouco das telas, a terem uma ocupação/ganho que acarretará importantes benefícios a todos, como redução do stress tanto da criança, quanto dos adultos em questão.

Prosseguindo e focando o terceiro item do bate-papo, Mirelle destacou a importância da Educação Infantil para a criança que, desde o momento em que ela pisa na escola, é estimulada e que a idade da pré-escola, é o momento em que a criança é uma verdadeira esponja e está em seu nível master. As relações que ela estabelece com as professoras, com os colegas de sala de aula, as experiências, trabalhinhos e aprendizados a ajudam a entender, aprender e estabelecer importantes vínculos afetivos que exprimem na verdade, a meta da Educação Infantil que é exatamente o de oportunizar o desenvolvimento integral da criança, nos aspectos físico, psicológico, intelectual e social. Assim sendo, é importante que o adulto também valorize o compromisso da criança e que a estimule a fazer da melhor forma possível, suas atividades escolares.

E o lazer? Quarto eixo da palestra, Mirelle compartilhou com os pais que muitas vezes há um equívoco em relação ao lazer que não necessariamente está ligado a brincadeiras. O lazer passa por um momento em que os pais compartilham experiências com os filhos, contando suas brincadeiras prediletas quando tinham a mesma idade que eles, momento de demonstrar aos filhos os próprios prazeres, o que gostavam quando tinham a mesma idade, por exemplo.

Neste tempo em que vivemos uma experiência totalmente nova para todos, é preciso exercitar a flexibilidade e perceber o que é excesso/excessivo em nossa vida. Mirella convidou os pais a pensarem que tipos de excessos devem ser deixados de lado, no intuito de se oportunizarem minutos de lazer. E destaca ainda o quão importante é enquanto pais, permitir aos filhos perceber a humanidade dos pais, que passa pelo fato de que os pais também se cansam, também se entristecem e que não dão conta de tudo. Curiosamente, quando a criança percebe isto, ela passa a entender melhor seus próprios sentimentos e a como lidar melhor com estes sentimentos.

Fechando o momento, Mirelle deixou que os pais se posicionassem e o momento foi igualmente rico e importante, pois permitiu aos pais compartilhar suas angústias, como Chris Caixeta, mãe do João Pedro, que compartilhou “o quão difícil está sendo conciliar a rotina com as tarefas, mas que aos poucos estão conseguindo se ajustar”.

Mariana Priscilla, mãe da Marina, agradeceu a palestrante pelo fato de que ela “ter conseguido nomear bem as dificuldades por que todos estão passando e que o momento deu uma luz para todos”.

Christiane, mãe do aluno Matheus, relatou a angústia dos filhos agora que ela retornou ao trabalho depois de ter ficado dois meses em casa.  A que Mirelle destacou a importância da atenção ao retornar para casa, quando poderão compartilhar atividades para compensar os momentos de separação.

Franciane, mãe do aluno Heitor destacou “a dificuldade de trabalhar as atividades com os filhos depois do horário de trabalho”, a que Mirella destacou a importância do ganho da autonomia nas atividades escolares. De que os pais devem permitir que as crianças façam algumas atividades sozinhas, enquanto estão fora trabalhando.

A questão da pirraça também foi abordada, por Ellen, mãe da aluna Yasmin, uma vez que as crianças estão com o humor alterado, privadas de saírem e experienciarem coisas diferentes, a que Mirelle pontuou “a importância do adulto manter a calma e de mostrar para a criança que, se ela não falar ou fazer a mamãe ou o papai entender o que a está incomodando, que a pirraça não a ajudará, que é preciso que ela explique por que está agindo daquela forma, para que possa ter a ajuda dos adultos”.

Tivemos outras ricas participações e diante das colocações dos pais, Mirelle fechou a palestra confidenciando aos presentes de que muitas das angústias compartilhadas podem ser minimizadas com atitudes simples: “É preciso apresentar às crianças objetos não estruturados, no intuito de levá-las a perceber que existem outras alternativas. Ter uma caixa em casa com objetos que estimule a criança a desenvolver seu potencial criativo é uma boa opção tanto para tirar as crianças da frente das telas, quanto para reduzir o nível de stress”. E o que seriam objetos não estruturados? Revistas, pedaços de objetos que podem virar outra coisa, permitindo que a criança use sua criatividade para criar outra(s) coisa(s) a partir do que ela tem na caixa, estimulando assim, seu potencial criativo que é muito grande.

Depois desta fala, agradecendo aos presentes, às professoras, as Irmãs da comunidade, a Ir. Luzia, diretora Colégio São José de Divinópolis e também à palestrante Mirelle França, Ir. Ribamar – diretora do Colégio Piedade, refletindo um pouco mais acerca de tudo o que estamos passando e finalizou sua fala compartilhando a seguinte reflexão: “Não podemos voltar ao normal, porque o normal era exatamente o problema. Precisamos voltar melhores. Menos egoístas. Mais solidários. Mais humanos, fraternos, respeitosos e sermos de fatos irmãos.

Reiterando os agradecimentos, a Coordenadora da Educação Infantil, Andréa Monteiro reforçou a importância da parceria das famílias, de que toda a equipe tem se desdobrado para oferecer o melhor, se ajustando à nova dinâmica, e que juntos “venceremos da melhor forma possível, o momento que estamos vivendo”.